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Sobre sorte, competência e cotas

outubro 3, 2014

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Preencho alguns requisitos que me transformam em argumento da corrente contrária à política de cotas nas universidades. Vim de família pobre, tenho dois pés na África, sempre estudei em escola pública. E entrei para a universidade sem precisar de cotas – até porque naquela época elas ainda estavam no papel. Mas faço parte da exceção, do acaso. Admito, passei no vestibular por um golpe da sorte.

Dizem que sorte não existe, que, na verdade, competência atrai sorte. Bobagem. Sorte existe sim! Tem sorte quem nasce branco e rico. Tem sorte quem não precisa escolher entre trabalhar e estudar, entre sustentar o sonho ou a família. E, em um momento-chave da vida, tive sorte. Pude fazer um ano de cursinho para ser aprovado, graças ao esforço e, por que não, da sorte dos meus pais. Outros colegas não tiveram chance ou dinheiro para correr atrás do tempo perdido em mais de uma década de ensino precário.

Até hoje, o abismo entre escolas pública e particular no Brasil é enorme. Cotas não geram (ou não deveriam gerar) mais discriminação nem são medidas para a eternidade. Enquanto construímos um país menos desigual, e isso leva muito tempo, elas apenas confrontam uma injustiça social que, no passado, só era atenuada por meio de sorte ou casualidade.

Eu sou um cara de sorte. Mas, como não tenho certeza de que os outros são igualmente sortudos, defendo as cotas, o Bolsa Família, Bolsa Escola e qualquer incentivo a políticas afirmativas. Por isso, peço encarecidamente que, antes de compartilhar montagens infames e deturpadas contra “o governo que dá esmola e o peixe aos pobres em vez de ensiná-los a pescar”, pare por um minuto e reflita.

Esqueça o clubismo partidário e pense que, assim como eu, você provavelmente é uma pessoa de sorte. Agradeça por nunca ter sentado numa carteira velha de madeira na escola pública que, para muitos, não representa só uma escola, mas também a única oportunidade, o único prato de comida, a única perspectiva de ser tratado com dignidade.

Ser “competente” e arrotar meritocracia sem precisar da sorte de cada dia para sobreviver é bem mais fácil e cômodo, para não dizer egoísta demais.

Por Breiller Pires

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