Archive for the ‘Geral’ Category

No meu tempo

fevereiro 2, 2009

Eu já nasci problemático. Não era um recém-nascido cheio de dilemas existenciais nem mesmo ansioso por algum futuro próspero. Não era isso.

Mas minha mãe disse que meu parto foi difícil. Custei a me desprender daquela conserva onde havia passado quase um ano.

relogio

E não é que sou assim até hoje? Não me desprendo com facilidade. Do passado, então, nem se fale.

Sou saudosista, mas já fui mais. Já fui mais animado, mais elétrico, mais impulsivo, mais preocupado com o que fazer no fim de semana ou nas férias de janeiro.

A impressão que dá é que eu já tive uma vida bem melhor. Não que hoje ela esteja ruim, pelo contrário. Vestígios do tempo e o amarelado nas fotografias, entretanto, conseguem encher de charme um passado que, talvez, nem tenha sido tão interessante assim.

Eu devia me desprender de tudo isso e passar a conjugar minha vida só no tempo presente. Só que o meu relógio teima sempre em andar pra trás.

Se algum ponteiro sai da linha, logo assumo a culpa e deixo como está. Remoer memórias virou um exercício diário, que, vez ou outra, deve equivaler a algumas boas sessões de yoga.

Gosto disso. Gosto de ir além e ir a fundo. Não me pergunte, então, como foi o dia de ontem ou a viagem do fim de semana. Eu já nem lembro mais.

Por Breiller Pires

Anúncios

Uma flor para Carlos

janeiro 8, 2009

Certa vez, passeando por Copacabana, uma senhora me intrigou, me assustou e me abordou de forma bem imprevista:

– Será que você poderia pegar uma flor para eu levar ao Carlos?

Não entendi nada. Mas, como a árvore, exibindo folhas e flores escassas, com um cinza típico de fim de outono, estava bem do meu lado, me estiquei e peguei uma flor para aquela senhora desconhecida.

Continuei sem entender. E ela, por sua vez, continuou explicando sem explicar.

 – Sabe, todo dia eu levo uma flor para o Carlos. Pode estar chovendo ou o que for, mas faço questão de lhe fazer esse agrado diariamente. É gratidão, entende?

Fingi que entendi. Eu estava muito encabulado na hora para perguntar quem diabos era o tal Carlos. Mas me arrependi durante muitos dias por não ter lhe perguntado quem era.

Passei horas imaginando como seria o Carlos querido daquela senhora. O jardineiro da praça? O porteiro do prédio? Um parente em coma no hospital?

A flor era para levar ao túmulo do marido? Era coisa da imaginação dela?

Não cheguei a um acordo comigo mesmo. Até que um dia, quase um mês depois do episódio, passei outra vez por Copacabana e vi uma cena bem parecida com esta.

carlos drummond

 A estátua de Carlos Drummond de Andrade, sentado no banco do calçadão, segurando uma flor de verdade, tal qual a que eu havia apanhado dias atrás.

Era a resposta para todas as minhas dúvidas. Que geraram outras igualmente intrigantes.

Por que levar uma flor todos os dias a uma estátua? O que permitia àquela senhora tratar um dos maiores poetas brasileiros com um tom tão intimista, se referindo a ele simplesmente como “o Carlos”? De onde vinha sua gratidão?

Essa última, no entanto, pode ser explicada por um trecho do poema “A flor e a náusea”, do próprio Drummond:

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor(…)
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Ainda me arrependo de não ter perguntado, no dia, quem era o Carlos. Mas, não tenho dúvidas, de que me arrependeria muito mais se não tivesse apanhado a flor.

Por Breiller Pires

Então, é Natal?

dezembro 18, 2008

papai_noel

Mês de Natal. Hora de comprar um montão de luzinhas para enfeitar a árvore.

 

Hora de pensar no presente do amigo-oculto, geralmente mais oculto do que amigo, que você tirou no sorteio do trabalho.

 

Hora de mandar fazer roupa nova para usar na ceia e na missa do dia 25. Que coisa, hein? Essa história de Natal dá é canseira.

 

Não fossem os presentes e o pretexto para fazer festa, a data seria um misto de 1º de maio com dia de finados: a causa é nobre, mas só celebra quem já morreu.

 

Inconveniente, o Natal ainda brinda a todos com uma bela pedrada na consciência. Campanhas de solidariedade e especiais na TV, que pipocam à mesma velocidade que as promoções nas lojas de roupas e brinquedos, tentam mostrar que nesse mundo, como se não soubéssemos, há muita gente precisando de ajuda.

 

E o espírito natalino, ao invés de nos presentear com paz e harmonia, quebra o nosso ego em pedaços e nos faz sentir o peso de uma impotência sem tamanho.

 

Talvez, se todos os dias fossem Natal, a consciência poderia até se sentir incomodada. Ajudar ao próximo, então, seria obrigação, questão de honra.

 

Mas como esse dia vem só de ano em ano, até o réveillon a gente já se esqueceu de tudo. E ainda sobra tempo para reclamar do presente que ganhamos do bom velhinho, cada dia mais gordo.

Por Breiller Pires

Eu quero ser

dezembro 2, 2008

Sempre quis ser jogador de futebol. Ou melhor, na verdade, sempre quis mesmo é ser motorista de ônibus. Mas não podia ser um ônibus qualquer.

Tinha que ser um ônibus de viagem. Imaginava uma vida boa, andando Brasil afora, viajando a trabalho. Imaginava que poderia viver disso para sempre.

Dirigir minha vida de acordo com os rumos da estrada. Pisar no freio quando desse na telha e escolher o melhor caminho, tudo sem pressa.

onibus

Descobri que eu estava viajando. Meninos de quatro, cinco anos não sonham ser motoristas de ônibus.

Sonham ser jogadores de futebol, médicos ou engenheiros.

Quando optei pelo futebol, já estava meio grandinho demais. Havia estourado o meu tempo.

Ser médico nem passou pela cabeça. Tenho fobia a sangue.

Para engenheiro, não tinha vocação. Faltava paciência para terminar um castelinho de areia. Um prédio, uma casa de verdade, não iriam além do alicerce.

Acabei sem opções na vida. E eis que, hoje, não sei o que eu quero ser. Mas tenho cada ideia…

Por Breiller Pires

Oi de novo, mundo!

setembro 11, 2008

Em breve – ou algum dia – vou postar coisas por aqui. Nada de futebol, tudo de mim? Podemos tentar…

No profile, o porquê do meu nome: B-R-E-I-L-L-E-R.

Enquanto isso, continuo firme no Rola Blog.

Saludos!