Vida de gráfica

Convivo desde pequeno com o “cheiro de gráfica”. Tem gente que aprecia o cheiro de terra molhada, o cheiro de bolo saindo do forno, o cheiro de sapato novo… Eu gosto do cheiro de gráfica.

O maior prazer de trabalhar em revista é receber a edição impressa recém-saída das rotativas, folheá-la com calma e sentir o cheiro de gráfica.

Devo esse apego tátil e olfativo ao papel à genética dos meus pais. Nasci entre as bobinas e chapas, dormi sobre as fileiras de prensas tipográficas, cresci ouvindo histórias de lendas invisíveis do fazer impresso, que o leitor mais astuto jamais imaginou existir.

grafica_bcd_impressos

Meus pais se conheceram na gráfica. Ela, impressora. Nunca se submeteu ao fogão. Mas pilota uma máquina de 10 toneladas com primor e perícia de um artesão. Se encaixa naqueles casos excepcionais, da mulher que teve de romper a barreira do preconceito para se colocar acima da crença de que certas funções pertencem à força bruta e burra do homem.

Mesmo assim, começou cedo na profissão. Ao longo das madrugadas, enquanto empilhava páginas de catálogos e jornais, era tachada pela ignorância da família como mulher indecente. Superou a fúria do machismo para imprimir sua força e se tornar a melhor funcionária da editora.

Ele entrou no circuito como mecânico. Logo, dominaria todas as aptidões do processo de impressão, da tipografia ao offset. Não demorou a montar a própria gráfica, na garagem de casa, e juntar forças com aquela impressora de sorriso farto e mãos bordadas de tinta e querosene.

Com anos árduos de suor empenhado no negócio em família, tinha credenciais para se tornar um empresário abastado, menos a da ganância, do lucro insaciável acima de todas as coisas.

Preferiu os moldes de oficina à corporação. O boca-a-boca ao marketing. O ser humano ao gestor. Com a gráfica, não só proveu educação aos filhos, mas ajudou a panfletar gentileza.

Do cafezinho com pão fresco servido pela manhã aos garis do bairro à mão generosa erguida a gente simples, empreendedores de toda classe: sonhadores, escritores, marceneiros, cozinheiros, doceiros, cantores de forró… Assim, sem propósito, pratica sua própria lei de responsabilidade social.

Hoje é dia do gráfico. Qualquer homenagem é pouca perto do orgulho que sinto ao lembrar dos dias em que tive a honra de dividir com eles o mais nobre dos ofícios na Gráfica BCD Impressos.

Por Breiller Pires

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Uma resposta to “Vida de gráfica”

  1. Carlos Says:

    É bonito ver um filho dar valor ao trabalho dos pais. Parabéns, você é um sujeito de sorte.

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