Mineirão

Domingo, um velho conhecido torna a dar as caras. Cara nova, limpinho, hi-tech.

Mas, para mim, ele continua o mesmo. Um time atacará para o lado da Lagoa. O outro, em direção ao Centro. Melhor imaginar que nada mudou.

A poucos quilômetros dali, no costado da Avenida Antônio Carlos, passei mais de 20 anos encabulado com sua grandeza. Não só de cimento e ferragens. Mas de alma pulsante, coisa mística.

Por vezes, o pessoal lá de casa saía para o terreiro – do tempo em que quintal era luxo – e, em silêncio absoluto, esperávamos a explosão da torcida na entrada dos times em campo. O som ultrapassava fácil e límpido a barreira de concreto do Gigante da Pampulha.

Mais tarde, nos aproximaríamos ainda mais. Foram quatro anos de UFMG, sua vizinha de cerca. Quando a aula acabava, preferia dar a volta, caminhar até o portão oposto, só para poder avistá-lo por um instante. Apesar de duas décadas de convivência, eu não me cansava de admirá-lo.

Quem repousava sobre suas arquibancadas em dia de festa, tinha a sensação perfeita de um terremoto na hora do gol. As bases tremiam, os batimentos martelavam. Experimentei, com ele, o mais profundo sentimento de delírio.

Não me lembro ao certo a ocasião de minha primeira visita. Aliás, sempre fui um visitante. Meu time, herdado do pai, companheiro de muitas jornadas, vinha de outras bandas. Nunca o vi ganhar naquele gramado.

Contudo, me lembro bem, ainda que de cabeça inchada pela derrota, saíamos do estádio, do alto da solidão pós-jogo que costuma acompanhar o torcedor visitante, plenamente realizados.

O simples ato de ir e adentrar a magnitude de cada espetáculo fazia aquele ritual valer a pena. Ganhar era o de menos. Não há palavras para agradecer a meu pai pela companhia em tardes e noites tão especiais.

Com esse amigo cinzento e quase cinquentão (aí já não me refiro a meu pai, mas sim ao palco de gênios como Ronaldo e Reinaldo), aprendi a distinguir mitos de crenças emocionais.

Aprendi que, ao contrário do que dizem, um prato de feijão tropeiro bem servido, generoso em torresmo e linguiça defumada, acompanhado do ovo frito propositadamente encharcado de gordura, faz muito bem ao coração.

Bem-vindo de volta, meu amigo.

Por Breiller Pires

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7 Respostas to “Mineirão”

  1. RICARDO CALDAS Says:

    Me emocionei com o texto, parece que foi escrito por mim!!!! Parabéns!!!!!

  2. Marco Samarone Says:

    Caramba, de arrepiar! O Mineirão faz parte da cultura e do caráter de todos os mineiros. É um presente vê-lo reformado em pleno Cruzeiro x Atlético.

  3. fabio Says:

    parabéns! faço minhas suas palavras

  4. Eugenio Says:

    Mandou bem, Breiller!

  5. Pedro Henrique Martins Says:

    Perfeito! Pena que os administradores do Mineirão não leram esse texto antes da reinauguração.

  6. Daniela Says:

    Uma lástima que o tropeiro agora é um marmitex de feijão sem gosto e sem tempero. Conseguiram acabar com o que tinha de melhor no Mineirão.

  7. Julio Aquino Says:

    Ótimo texto! Me lembrei de meu pai, quando iamos juntos ao Mineirão passando pela orla da Lagoa nos anos 80 ver o Galo de Reinaldo e companhia jogar. Bons tempos que não voltam mais.

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