Uma flor para Carlos

Certa vez, passeando por Copacabana, uma senhora me intrigou, me assustou e me abordou de forma bem imprevista:

– Será que você poderia pegar uma flor para eu levar ao Carlos?

Não entendi nada. Mas, como a árvore, exibindo folhas e flores escassas, com um cinza típico de fim de outono, estava bem do meu lado, me estiquei e peguei uma flor para aquela senhora desconhecida.

Continuei sem entender. E ela, por sua vez, continuou explicando sem explicar.

 – Sabe, todo dia eu levo uma flor para o Carlos. Pode estar chovendo ou o que for, mas faço questão de lhe fazer esse agrado diariamente. É gratidão, entende?

Fingi que entendi. Eu estava muito encabulado na hora para perguntar quem diabos era o tal Carlos. Mas me arrependi durante muitos dias por não ter lhe perguntado quem era.

Passei horas imaginando como seria o Carlos querido daquela senhora. O jardineiro da praça? O porteiro do prédio? Um parente em coma no hospital?

A flor era para levar ao túmulo do marido? Era coisa da imaginação dela?

Não cheguei a um acordo comigo mesmo. Até que um dia, quase um mês depois do episódio, passei outra vez por Copacabana e vi uma cena bem parecida com esta.

carlos drummond

 A estátua de Carlos Drummond de Andrade, sentado no banco do calçadão, segurando uma flor de verdade, tal qual a que eu havia apanhado dias atrás.

Era a resposta para todas as minhas dúvidas. Que geraram outras igualmente intrigantes.

Por que levar uma flor todos os dias a uma estátua? O que permitia àquela senhora tratar um dos maiores poetas brasileiros com um tom tão intimista, se referindo a ele simplesmente como “o Carlos”? De onde vinha sua gratidão?

Essa última, no entanto, pode ser explicada por um trecho do poema “A flor e a náusea”, do próprio Drummond:

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor(…)
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Ainda me arrependo de não ter perguntado, no dia, quem era o Carlos. Mas, não tenho dúvidas, de que me arrependeria muito mais se não tivesse apanhado a flor.

Por Breiller Pires

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3 Respostas to “Uma flor para Carlos”

  1. Ana Brunini Says:

    Lindo seu texto, leve e profundo…
    Eu também, sem fazer gesto algum, sou grata a ele.

    “Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão.”
    (Jean de La Bruyère)

    =D

  2. Fernanda Alamino Says:

    Olá Breiller,
    Trabalho em uma revista de educação chamada Presente! Em nossa próxima edição, publicaremos uma crônica de Drummond sobre como começou a escrever e adoraria utilizar a sua foto. Seria possível? Você a teria em alta resolução ou em tamanho grande?
    Aguardo suas respostas e dúvidas por e-mail.
    Obrigada
    Fernanda Alamino

  3. Carlos Drummond de Andrade, “gauche” na vida « Umas & Outras Says:

    […] entao hoje o poeta de “A Flor e a Náusea”, este homem que sentava “no chão da capital do país às cinco horas da tarde” e […]

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