Parabéns, Tocantins-MG!

dezembro 27, 2015

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Tocantins é grande o bastante para nossa imaginação e pequena demais para os nossos sonhos. Tem nome de um rio, mas, quando você responde pra alguém que é de lá, vem logo a cara de susto com a lonjura do lugar. “Calma, é a cidade, não o estado.”

Tocantins é um convite ao Jubileu, aos blocos de Carnaval, aos bailes do Colinas. E, no frio de julho, à Semana do Tocantinense Ausente. Porque quem é de Tocantins cresce com ânsia de ir embora, mas, assim que ganha o mundo, conta os minutos para voltar pra casa e torce para que as horas passem devagar antes de pegar a estrada de novo.

Torce também para o Itararé, Guarajá, União, São José e Vasquinho. Em Tocantins, a Grama do vizinho é sempre mais verde, o Beija-Flor contempla a Bela Vista e, do Largo pra cima, é tudo Patrimônio. Em Tocantins, escola de gente grande é Ginásio e, a qualquer sinal de espanto, ouve-se um “cruz-credo”. Tem base?

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Tocantins é saudade do murmurinho da praça nas noites estreladas de domingo depois da missa. De gente que senta no passeio pra jogar conversa fora e respirar o ar fresco dos eucaliptos. Do doce de leite, do queijo caseiro, da broa de fubá e do fumo sabiá. Tocantins é refúgio de discos voadores durante a “coresma”.

Tocantins, sinônimo de felicidade, que hoje celebra seus 67 anos, é um pedaço do meu coração encravado na Zona da Mata mineira, tem cheiro de manga-ubá e gosto de Abacatinho.

Por Breiller Pires

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Sobre sorte, competência e cotas

outubro 3, 2014

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Preencho alguns requisitos que me transformam em argumento da corrente contrária à política de cotas nas universidades. Vim de família pobre, tenho dois pés na África, sempre estudei em escola pública. E entrei para a universidade sem precisar de cotas – até porque naquela época elas ainda estavam no papel. Mas faço parte da exceção, do acaso. Admito, passei no vestibular por um golpe da sorte.

Dizem que sorte não existe, que, na verdade, competência atrai sorte. Bobagem. Sorte existe sim! Tem sorte quem nasce branco e rico. Tem sorte quem não precisa escolher entre trabalhar e estudar, entre sustentar o sonho ou a família. E, em um momento-chave da vida, tive sorte. Pude fazer um ano de cursinho para ser aprovado, graças ao esforço e, por que não, da sorte dos meus pais. Outros colegas não tiveram chance ou dinheiro para correr atrás do tempo perdido em mais de uma década de ensino precário.

Até hoje, o abismo entre escolas pública e particular no Brasil é enorme. Cotas não geram (ou não deveriam gerar) mais discriminação nem são medidas para a eternidade. Enquanto construímos um país menos desigual, e isso leva muito tempo, elas apenas confrontam uma injustiça social que, no passado, só era atenuada por meio de sorte ou casualidade.

Eu sou um cara de sorte. Mas, como não tenho certeza de que os outros são igualmente sortudos, defendo as cotas, o Bolsa Família, Bolsa Escola e qualquer incentivo a políticas afirmativas. Por isso, peço encarecidamente que, antes de compartilhar montagens infames e deturpadas contra “o governo que dá esmola e o peixe aos pobres em vez de ensiná-los a pescar”, pare por um minuto e reflita.

Esqueça o clubismo partidário e pense que, assim como eu, você provavelmente é uma pessoa de sorte. Agradeça por nunca ter sentado numa carteira velha de madeira na escola pública que, para muitos, não representa só uma escola, mas também a única oportunidade, o único prato de comida, a única perspectiva de ser tratado com dignidade.

Ser “competente” e arrotar meritocracia sem precisar da sorte de cada dia para sobreviver é bem mais fácil e cômodo, para não dizer egoísta demais.

Por Breiller Pires

Breiller Pires, o atacante desmarcado

setembro 17, 2014

Ele já vazou as redes adversárias por doze vezes, o que o transforma no artilheiro do time e no vice-líder da artilharia geral do torneio. Nem assim o repórter da revista Placar, Breiller Pires, discreto reforço apresentado sem direito à sirene no início do torneio pela ESPN, considera que o oportunismo seja sua principal virtude: para ele, os zagueiros rivais apenas se esquecem de marcá-lo, mais preocupados que ficam com o outro homem-gol dos canais.

Assim, aos 27 anos de idade, o atacante de 1m86 de altura e 80 quilos, que trabalha há três anos na mais tradicional publicação futebolística do país, conseguiu cavar a titularidade num time que já era forte: a base vice-campeã do ano passado, afinal, fora toda mantida pelo time do Sumaré para a atual disputa. No ano passado, a Vexame chegou a sondar Breiller, mas a negociação não avançou. Até que a ESPN cruzou-lhe o caminho. “Sempre tive o sonho de jogar em time grande”, deslumbra-se. Confira a conversa com o craque:

São Paulo, SP, 30 - 09 - 2013.  Copa Imprensa Nike de Futebol Society 2013

Você é repórter da Placar. Por que a mais tradicional revista de futebol do país não montou time para a copa?
Fui emprestado à ESPN, sem passe fixado, já que a bruxa correu solta pela redação da Placar nesta temporada. Temos quatro jogadores entregues ao departamento médico. Além dos chinelinhos, sofremos baixas com atletas que se perderam pela vida boêmia. Há uma remota esperança de recuperá-los a tempo de inscrever o time para a edição 2014.

É sua primeira Copa Imprensa?
Sim, primeira participação. Ano passado, meu empresário recebeu sondagens do time da Vexame, mas não chegamos a um acordo na hora de assinar a papelada.

Como foi sua aproximação com o pessoal da ESPN, onde eles te viram jogar para convidá-lo? E como foi cavar a titularidade num time que já era forte?
Jogamos uma pelada semanal, mais conhecida como Premier League, que reúne atletas da Editora Abril e da ESPN. E já conhecia de longa data o Arnaldo Ribeiro, ex-placariano. Quando o Rafael “Adrian Mutu” Almeida me convidou para o campeonato, não pensei duas vezes. Sempre tive o sonho de jogar em um time grande, ao lado de ídolos como Arnaldo, Alê Oliveira, Paulo Andrade e Paulo Sérgio. Fui muito bem recebido pelo grupo e pelo professor Edu Affonso, que me deixou à vontade para mostrar meu futebol. Só tenho a agradecer à família ESPN por todo apoio durante essa jornada.

Qual a sensação de ser parceiro de ataque de um campeão do mundo – e de ter feito mais gols do que ele?
Na verdade, só tenho mais gols do que ele porque, enquanto os adversários se preocupam em marcá-lo, eu fico livre na banheira para arrematar. Sem contar as assistências e as inúmeras jogadas que ele cria. Paulo Sérgio é um monstro, o melhor ex-jogador em atividade no Brasil. É um privilégio contar com ele em nosso time.

Nossos registros fotográficos o flagraram vivenciando seu “momento Maradona” contra o SporTV. Caso vá às redes na final, já imagina como será a comemoração?
Contra o SporTV, joguei no sacrifício, sob efeito de analgésicos  – o que não tem qualquer relação com o “momento Maradona”. Felizmente consegui superar o desgaste e ajudar a equipe. A comemoração foi para descarregar a tensão, das dores e da partida. Não planejo nenhuma comemoração especial na decisão, até porque enfrentar a Assessoria, o melhor time do campeonato, será complicado. Mas prometo levar uma bandeira da Placar para a volta olímpica – caso a gente conquiste nosso objetivo.

Publicado originalmente por: Copa Imprensa Nike ACEESP

Vida de gráfica

fevereiro 7, 2014

Convivo desde pequeno com o “cheiro de gráfica”. Tem gente que aprecia o cheiro de terra molhada, o cheiro de bolo saindo do forno, o cheiro de sapato novo… Eu gosto do cheiro de gráfica.

O maior prazer de trabalhar em revista é receber a edição impressa recém-saída das rotativas, folheá-la com calma e sentir o cheiro de gráfica.

Devo esse apego tátil e olfativo ao papel à genética dos meus pais. Nasci entre as bobinas e chapas, dormi sobre as fileiras de prensas tipográficas, cresci ouvindo histórias de lendas invisíveis do fazer impresso, que o leitor mais astuto jamais imaginou existir.

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Meus pais se conheceram na gráfica. Ela, impressora. Nunca se submeteu ao fogão. Mas pilota uma máquina de 10 toneladas com primor e perícia de um artesão. Se encaixa naqueles casos excepcionais, da mulher que teve de romper a barreira do preconceito para se colocar acima da crença de que certas funções pertencem à força bruta e burra do homem.

Mesmo assim, começou cedo na profissão. Ao longo das madrugadas, enquanto empilhava páginas de catálogos e jornais, era tachada pela ignorância da família como mulher indecente. Superou a fúria do machismo para imprimir sua força e se tornar a melhor funcionária da editora.

Ele entrou no circuito como mecânico. Logo, dominaria todas as aptidões do processo de impressão, da tipografia ao offset. Não demorou a montar a própria gráfica, na garagem de casa, e juntar forças com aquela impressora de sorriso farto e mãos bordadas de tinta e querosene.

Com anos árduos de suor empenhado no negócio em família, tinha credenciais para se tornar um empresário abastado, menos a da ganância, do lucro insaciável acima de todas as coisas.

Preferiu os moldes de oficina à corporação. O boca-a-boca ao marketing. O ser humano ao gestor. Com a gráfica, não só proveu educação aos filhos, mas ajudou a panfletar gentileza.

Do cafezinho com pão fresco servido pela manhã aos garis do bairro à mão generosa erguida a gente simples, empreendedores de toda classe: sonhadores, escritores, marceneiros, cozinheiros, doceiros, cantores de forró… Assim, sem propósito, pratica sua própria lei de responsabilidade social.

Hoje é dia do gráfico. Qualquer homenagem é pouca perto do orgulho que sinto ao lembrar dos dias em que tive a honra de dividir com eles o mais nobre dos ofícios na Gráfica BCD Impressos.

Por Breiller Pires

Mineirão

fevereiro 1, 2013

Domingo, um velho conhecido torna a dar as caras. Cara nova, limpinho, hi-tech.

Mas, para mim, ele continua o mesmo. Um time atacará para o lado da Lagoa. O outro, em direção ao Centro. Melhor imaginar que nada mudou.

A poucos quilômetros dali, no costado da Avenida Antônio Carlos, passei mais de 20 anos encabulado com sua grandeza. Não só de cimento e ferragens. Mas de alma pulsante, coisa mística.

Por vezes, o pessoal lá de casa saía para o terreiro – do tempo em que quintal era luxo – e, em silêncio absoluto, esperávamos a explosão da torcida na entrada dos times em campo. O som ultrapassava fácil e límpido a barreira de concreto do Gigante da Pampulha.

Mais tarde, nos aproximaríamos ainda mais. Foram quatro anos de UFMG, sua vizinha de cerca. Quando a aula acabava, preferia dar a volta, caminhar até o portão oposto, só para poder avistá-lo por um instante. Apesar de duas décadas de convivência, eu não me cansava de admirá-lo.

Quem repousava sobre suas arquibancadas em dia de festa, tinha a sensação perfeita de um terremoto na hora do gol. As bases tremiam, os batimentos martelavam. Experimentei, com ele, o mais profundo sentimento de delírio.

Não me lembro ao certo a ocasião de minha primeira visita. Aliás, sempre fui um visitante. Meu time, herdado do pai, companheiro de muitas jornadas, vinha de outras bandas. Nunca o vi ganhar naquele gramado.

Contudo, me lembro bem, ainda que de cabeça inchada pela derrota, saíamos do estádio, do alto da solidão pós-jogo que costuma acompanhar o torcedor visitante, plenamente realizados.

O simples ato de ir e adentrar a magnitude de cada espetáculo fazia aquele ritual valer a pena. Ganhar era o de menos. Não há palavras para agradecer a meu pai pela companhia em tardes e noites tão especiais.

Com esse amigo cinzento e quase cinquentão (aí já não me refiro a meu pai, mas sim ao palco de gênios como Ronaldo e Reinaldo), aprendi a distinguir mitos de crenças emocionais.

Aprendi que, ao contrário do que dizem, um prato de feijão tropeiro bem servido, generoso em torresmo e linguiça defumada, acompanhado do ovo frito propositadamente encharcado de gordura, faz muito bem ao coração.

Bem-vindo de volta, meu amigo.

Por Breiller Pires

A mão da discórdia

junho 22, 2012

Por Breiller Pires

Estrela do Liverpool e da seleção uruguaia, Luis Suárez carrega o peso da mão que o marcou na Copa de 2010. Além disso, em entrevista exclusiva à PLACAR, ele ainda afirma que seria hipocrisia cumprimentar Evra, lateral-esquerdo do Manchester United, após a acusação de racismo que lhe rendeu suspensão de oito jogos no fim do ano passado.

Às vésperas da Olimpíada de Londres – a seleção uruguaia estreia contra os Emirados Árabes, nesta quinta-feira -, Luisito elogia o zagueiro Thiago Silva, recém-transferido para o Paris Saint-Germain, e ainda revela gafe de Loco Abreu no Mundial da África do Sul. “O Loco gosta de fazer graça com todo mundo, mas foi ele quem virou a piada na Copa.”

Craques de outras seleções, como Chicharito Hernández, do México, não irão à Olimpíada para poder descansar. Vale a pena perder as férias em Londres?
Para mim, não importam as férias. Tenho 25 anos, posso descansar depois. Voltar aos Jogos Olímpicos após mais de 80 anos é algo grandioso para o Uruguai. Todos nós jogadores estamos orgulhosos. Temos de aproveitar esse momento único e a oportunidade de estar na Olimpíada para fazer o máximo pela camisa celeste.

O que explica o renascimento da seleção uruguaia nos últimos anos?
“El Maestro” [Oscar Tabárez] fez um trabalho incrível, e os dirigentes tiveram paciência com o projeto que ele tinha em mente. Os torcedores também o respaldaram, os jogadores confiam nele, assim como ele confia no grupo. É um projeto de longo prazo, que já vem colhendo seus frutos, como esse retorno histórico para a Olimpíada.

O Uruguai tem condições de repetir o Maracanazo na Copa de 2014? Você se candidataria ao posto de novo Gigghia?
Não estamos pensando em fazer outro Maracanazo nem em ficar em quarto lugar como no último Mundial. Primeiro, temos uma eliminatória complicada para jogar, que vem sendo muito equilibrada. Não podemos pensar em Maracanazo, já que, por enquanto, só o Brasil tem vaga na Copa. Os uruguaios querem que a gente repita o feito de 1950. O povo está eufórico pelo que a seleção vem jogando ultimamente. Mas somos conscientes, pensamos jogo a jogo, sem obsessão por um novo Maracanazo.

No último ranking da Fifa, o Uruguai ocupa o terceiro lugar, enquanto o Brasil não figura sequer nas dez primeiras posições. Há tanta diferença entre as duas seleções?
O Brasil trocou sua comissão técnica há pouco tempo, tem uma seleção jovem, que está aprendendo a filosofia do treinador. É preciso ter paciência, como tiveram os torcedores uruguaios com nossa seleção. De qualquer maneira, o Brasil é favorito em todos os campeonatos, principalmente na Copa de 2014, que jogará em casa.

Qual é o melhor zagueiro que você enfrentou?
Não digo isso porque você é brasileiro, mas Thiago Silva, do Milan, é o melhor marcador que já enfrentei. Ele é alto, tem qualidade e velocidade, completo para um zagueiro central. Não acharia ruim não ter de cruzar com ele de novo na Olimpíada [risos].

Incomoda ser sempre lembrado pela “mão de Deus” na Copa de 2010?
Não é que me incomode, mas eu gostaria que as pessoas me recordassem mais por meus gols na Copa do que pela mão, que ficou gravada na história. Todavia, eu não me arrependo do que fiz.

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Asamoah Gyan chegou a dizer que você é a pessoa mais odiada de Gana…
Não fui eu que errei o pênalti. Quem errou foi ele, que teve a oportunidade que todo jogador queria ter para virar herói e levar seu país a uma semifinal de Copa. Ele não soube aproveitar. E o juiz fez tudo certo. Eu evitei um gol com a mão e fui expulso. Mas não tenho culpa se o adversário desperdiçou a cobrança. Quando enfrentei Gyan novamente [jogo do Liverpool contra o Sunderland, em março de 2011], ele não me disse nada cara a cara.

Você esperava que Evra pudesse denunciá-lo por racismo?
Me surpreendeu a suspensão de oitos jogos. Foi inacreditável. O que mais me dói é ter sido acusado e punido sem que ninguém, nem o juiz do processo, tivesse uma prova sequer contra mim. Estou de consciência tranquila. Nada foi provado.

Você sofreu muitas críticas na Inglaterra depois do episódio…
A imprensa inglesa distorce os fatos para vender. Se eu ligasse para o que dizem na Inglaterra, hoje em dia não estaria mais jogando futebol. Eu não leio jornais ingleses, não me interessa o que eles dizem. O que faço no Liverpool é só jogar futebol, não dou ouvidos à imprensa.

O Liverpool condenou sua atitude de não cumprimentar Evra. A seleção uruguaia também o repreendeu?
O povo uruguaio e os jogadores da seleção foram os que mais me apoiaram. No Uruguai, existem pessoas da outra raça, de cor negra. Eu nunca tive problema desse tipo durante a carreira. Mas seria hipócrita da minha parte dar a mão a Evra depois de tudo que ocorreu.

Loco Abreu está há dois anos no Brasil. Lugano e Arévalo Rios também já jogaram por aqui. Agora, chegaram Diego Forlán (Internacional) e Lodeiro (Botafogo). E você, o que acha da ideia de atuar por um clube brasileiro?
Vários jogadores consagrados na Europa estão voltando ao Brasil. Além disso, tenho companheiros no Uruguai que falam bem do futebol brasileiro. Mas ainda sou jovem, tenho muitos anos de contrato no Liverpool. Não penso em sair de lá tão cedo, porque é uma equipe em que sempre sonhei jogar.

Qual a melhor história que você guarda da seleção uruguaia?
Em nosso primeiro dia na África do Sul, antes da Copa, tomávamos banho tranquilamente no vestiário até que o Loco Abreu saiu de toalha dizendo que não havia água quente em seu chuveiro. Na verdade, ele não se deu conta de que o “C” da torneira não significava “caliente” (quente, em espanhol), mas sim “cold” (frio, em inglês). Ele deveria ter aberto a torneia com “H” (hot, em inglês), que em nosso país é “helado” (frio). O Loco gosta de fazer graça com todo mundo, mas depois disso ele virou a piada na Copa [risos].

Loco fez a cavadinha que deu a classificação ao Uruguai contra Gana. No lugar dele, você arriscaria a mesma cobrança?
De jeito nenhum. Não tenho essa coragem. Há coisas que só ele faz, e por isso é conhecido como Loco e tão amado pelos uruguaios.

A partida contra Gana foi a mais marcante de sua vida?
Sem dúvida me marcou muito. Nem eu nem as pessoas que viram o jogo nos esqueceremos de tudo que aconteceu naquele dia. Valeu a pena trocar uma expulsão pela classificação.

Entrevista publicada em junho de 2012 no site da revista Placar

No meu tempo

fevereiro 2, 2009

Eu já nasci problemático. Não era um recém-nascido cheio de dilemas existenciais nem mesmo ansioso por algum futuro próspero. Não era isso.

Mas minha mãe disse que meu parto foi difícil. Custei a me desprender daquela conserva onde havia passado quase um ano.

relogio

E não é que sou assim até hoje? Não me desprendo com facilidade. Do passado, então, nem se fale.

Sou saudosista, mas já fui mais. Já fui mais animado, mais elétrico, mais impulsivo, mais preocupado com o que fazer no fim de semana ou nas férias de janeiro.

A impressão que dá é que eu já tive uma vida bem melhor. Não que hoje ela esteja ruim, pelo contrário. Vestígios do tempo e o amarelado nas fotografias, entretanto, conseguem encher de charme um passado que, talvez, nem tenha sido tão interessante assim.

Eu devia me desprender de tudo isso e passar a conjugar minha vida só no tempo presente. Só que o meu relógio teima sempre em andar pra trás.

Se algum ponteiro sai da linha, logo assumo a culpa e deixo como está. Remoer memórias virou um exercício diário, que, vez ou outra, deve equivaler a algumas boas sessões de yoga.

Gosto disso. Gosto de ir além e ir a fundo. Não me pergunte, então, como foi o dia de ontem ou a viagem do fim de semana. Eu já nem lembro mais.

Por Breiller Pires

Uma flor para Carlos

janeiro 8, 2009

Certa vez, passeando por Copacabana, uma senhora me intrigou, me assustou e me abordou de forma bem imprevista:

– Será que você poderia pegar uma flor para eu levar ao Carlos?

Não entendi nada. Mas, como a árvore, exibindo folhas e flores escassas, com um cinza típico de fim de outono, estava bem do meu lado, me estiquei e peguei uma flor para aquela senhora desconhecida.

Continuei sem entender. E ela, por sua vez, continuou explicando sem explicar.

 – Sabe, todo dia eu levo uma flor para o Carlos. Pode estar chovendo ou o que for, mas faço questão de lhe fazer esse agrado diariamente. É gratidão, entende?

Fingi que entendi. Eu estava muito encabulado na hora para perguntar quem diabos era o tal Carlos. Mas me arrependi durante muitos dias por não ter lhe perguntado quem era.

Passei horas imaginando como seria o Carlos querido daquela senhora. O jardineiro da praça? O porteiro do prédio? Um parente em coma no hospital?

A flor era para levar ao túmulo do marido? Era coisa da imaginação dela?

Não cheguei a um acordo comigo mesmo. Até que um dia, quase um mês depois do episódio, passei outra vez por Copacabana e vi uma cena bem parecida com esta.

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 A estátua de Carlos Drummond de Andrade, sentado no banco do calçadão, segurando uma flor de verdade, tal qual a que eu havia apanhado dias atrás.

Era a resposta para todas as minhas dúvidas. Que geraram outras igualmente intrigantes.

Por que levar uma flor todos os dias a uma estátua? O que permitia àquela senhora tratar um dos maiores poetas brasileiros com um tom tão intimista, se referindo a ele simplesmente como “o Carlos”? De onde vinha sua gratidão?

Essa última, no entanto, pode ser explicada por um trecho do poema “A flor e a náusea”, do próprio Drummond:

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor(…)
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Ainda me arrependo de não ter perguntado, no dia, quem era o Carlos. Mas, não tenho dúvidas, de que me arrependeria muito mais se não tivesse apanhado a flor.

Por Breiller Pires

Então, é Natal?

dezembro 18, 2008

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Mês de Natal. Hora de comprar um montão de luzinhas para enfeitar a árvore.

 

Hora de pensar no presente do amigo-oculto, geralmente mais oculto do que amigo, que você tirou no sorteio do trabalho.

 

Hora de mandar fazer roupa nova para usar na ceia e na missa do dia 25. Que coisa, hein? Essa história de Natal dá é canseira.

 

Não fossem os presentes e o pretexto para fazer festa, a data seria um misto de 1º de maio com dia de finados: a causa é nobre, mas só celebra quem já morreu.

 

Inconveniente, o Natal ainda brinda a todos com uma bela pedrada na consciência. Campanhas de solidariedade e especiais na TV, que pipocam à mesma velocidade que as promoções nas lojas de roupas e brinquedos, tentam mostrar que nesse mundo, como se não soubéssemos, há muita gente precisando de ajuda.

 

E o espírito natalino, ao invés de nos presentear com paz e harmonia, quebra o nosso ego em pedaços e nos faz sentir o peso de uma impotência sem tamanho.

 

Talvez, se todos os dias fossem Natal, a consciência poderia até se sentir incomodada. Ajudar ao próximo, então, seria obrigação, questão de honra.

 

Mas como esse dia vem só de ano em ano, até o réveillon a gente já se esqueceu de tudo. E ainda sobra tempo para reclamar do presente que ganhamos do bom velhinho, cada dia mais gordo.

Por Breiller Pires

Eu quero ser

dezembro 2, 2008

Sempre quis ser jogador de futebol. Ou melhor, na verdade, sempre quis mesmo é ser motorista de ônibus. Mas não podia ser um ônibus qualquer.

Tinha que ser um ônibus de viagem. Imaginava uma vida boa, andando Brasil afora, viajando a trabalho. Imaginava que poderia viver disso para sempre.

Dirigir minha vida de acordo com os rumos da estrada. Pisar no freio quando desse na telha e escolher o melhor caminho, tudo sem pressa.

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Descobri que eu estava viajando. Meninos de quatro, cinco anos não sonham ser motoristas de ônibus.

Sonham ser jogadores de futebol, médicos ou engenheiros.

Quando optei pelo futebol, já estava meio grandinho demais. Havia estourado o meu tempo.

Ser médico nem passou pela cabeça. Tenho fobia a sangue.

Para engenheiro, não tinha vocação. Faltava paciência para terminar um castelinho de areia. Um prédio, uma casa de verdade, não iriam além do alicerce.

Acabei sem opções na vida. E eis que, hoje, não sei o que eu quero ser. Mas tenho cada ideia…

Por Breiller Pires